Sobre o time

A festa rubronegra
(por Kadj Oman)

Não, este não é um artigo enumerando argumentos arbitrários – mas nem por isso implausíveis – sobre o Flamengo como primeiro penta brasileiro.

Este não é sequer um artigo sobre futebol profissional.

Hoje, o assunto aqui é paixão. Uma paixão rubro-negra.

Acontece que em São Paulo, capital, um grupo de punks, ex-punks, anarquistas e autogestionários em geral se cansou de assistir o negócio corroendo o futebol e resolveu que também queria jogar. Fundaram o Autônomos FC e, como não poderia deixar de ser, escolheram o vermelho e o negro para representar tudo aquilo nos uniformes.

Seguindo o movimento da metrópole, começaram jogando futebol society, aquela modalidade que surgiu nas mansões do Morumbi e que diz muito sobre o espaço da metrópole em relação ao lazer-consumo e ao consumo do lazer. Jogavam como visitantes, e durante um ano estiveram em inúmeras quadras, em todos as zonas e até mesmo no Grande ABC. O time era quase nunca o mesmo, e rodaram por ele argentinos, australianos, canadenses e até 5 suíços integrantes de uma banda de ska que tinha vindo tocar por aqui. O retrospecto dentro de campo era pífio: 2 vitórias, 1 empate e mais de 40 derrotas. Mas isso era o que menos importava, afinal, estavam ali pela festa. A frase que melhor definia a equipe partira de seu goleiro: “jogar bola é fácil, difícil é jogar futebol”.

Jogaram, jogaram e jogaram e, por todo canto, causavam risos, dentro e fora de campo. E também algumas brigas.

Brigas que fizeram com que se cansassem daquilo. O futebol society era por demais uma simulação do profissional, frio, excessivamente bélico. Não conseguiam causar nos adversários – ou na maioria deles – a mesma sensação boa que tinham ao jogar bola, não conseguiam fazer com que entendessem e participassem da festa autônoma.

Era ora de ir pra várzea, o lugar por excelência do futebol amador, tentar ver se pelo menos ali ainda encontravam algum resquício daquele futebol de antigamente, que todos eles viviam intensamente, mesmo tendo nascido anos ou décadas depois do seu auge.

Se juntar 7 pra jogar society era difícil, juntar 11 então tornou-se tarefa ainda mais árdua. Não dava mais pra ser visitante. Precisavam de uma casa e de um objetivo.

Fixaram então residência – temporária – na zona leste, em um campinho de terra que ao chover se transformava em lama. E inscreveram-se em um dos hoje poucos campeonatos amadores da cidade.

Treinaram, por um mês, com o sonho de passar pelo menos da primeira fase. Com chuva, às 08h da manhã de sábado, estavam lá, vivendo o seu sonho próprio de futebol, correndo, gritando, sorrindo.

E, preparados como nunca, partiram pro jogo.

Ou melhor, dois jogos, ida e volta, contra o mesmo adversário.

Dois jogos que terminaram com o mesmo placar: 4 x 0.

Pra eles.

Eles que saíram de campo após o segundo jogo do mesmo jeito que o venezuelano que acompanhou do banco a derrota do agora já mais do que querido “Auto”: sem entender como pode um time perder duas vezes de goleada e sair de campo feliz e cantando seu grito de guerra.

Ali, o “vamô, vamô, torcida autônoma” se eternizou como hino do Autônomos FC.

De 2007 para cá, o time cresceu, e mudou. Ampliou-se quantitativamente e também qualitativamente. Vieram muitos jogar pelo Auto, ingleses, lituanos, cariocas, gente de todos os cantos da cidade. Todos queriam conhecer o time em que a qualidade técnica não era o único critério pra definir quem jogava e quem não. O time que aceitava qualquer um. Muitas visões de mundo diferentes chegaram, e o que antes era um grupo de amigos com mais ou menos as mesmas afinidades culturais e visões políticas parecidas passou a ser um coletivo, uma comunidade, com seus encontros e desencontros, erros e acertos.

Muita água rolou por baixo da ponte rubronegra, e depois de se tornar campeão do primeiro campeonato organizado pelo próprio time, a casa passou a ser na Lapa, definitivamente. Mais precisamente numa das esquinas da Marginal Tietê que resistiram à industrialização e mantiveram seus campos amadores literal e geograficamente na várzea do rio. Meninas vieram, e então um time feminino de futebol de salão. A brincadeira crescia, tornava-se maior, mais organizada.

Daquele grupo começaram a nascer vontades pra além do jogo. E se meteram em movimentos por moradia, por passe livre no transporte público, pelo resgate da cultura torcedora nos estádios. E ainda lá estão, como aqui, jogando e cantando. Meninos e meninas, que em 2008 descobriram que em outros lugares do mundo haviam outros grupos como eles, e que acabaram recebendo amigos ingleses de Bristol, o Easton Cowboys & Cowgirls, em uma visita inesquecível.

Em 2010, foi a vez do Auto ir à Europa. Vinte e seis pessoas realizando um monte de sonhos numa coisa só: futebol, política, música, amizade, ativismo. Tudo junto e agora, porque é assim que tem que ser mesmo, completo, não esfacelado como o tempo do nosso cotidiano. E jogaram a Copa do Mundo Alternativa, e eram então jogadores de uma Copa do Mundo! E quanto da infância não se fazia real ali, naqueles gramados chuvosos de York, Inglaterra? Estavam agora lado a lado com Garrincha, Pelé, Maradona, Cruyff, Beckenbauer. E o time que começara em maio de 2006 voltava ao Brasil sabendo que não, não estamos sozinhos.

Cinco anos em 2011. Cinco anos de uma retomada que não tem fim. À procura de uma sede agora, de fixar uma referência espacial pras suas festas bimestrais, pros encontros de sábado, pras bebedeiras de vários dias da semana. Sem programa, sem contrato, sem norte, o Autônomos foi se criando, se construindo sozinho, constituindo valores, e rompendo as amarras de uma cidade que cada vez menos permite o encontro e o coletivo. A sede veio – a Casa Mafalda – e entramos 2012 com a organização conjunta, na Argentina, da I Copa America Alternativa, sediada pelo Club Social, Atletico y Deportivo Ernesto “Che” Guevara e vencida pelo Auto. O primeiro título internacional, antes dos 6 anos de vida!

E 2012 seguiu com a reestruturação da Casa Mafalda, do time feminino e o começo de um time de futsal misto.

Há tempos, quando o futebol por aqui chegou, anarquistas e comunistas viravam a cara para “o ópio do povo”. Alguns mudaram de conceito e inclusive fundaram clubes. Mas o estereótipo ficou. Hoje, é tempo de acabar com ele. Quem luta também quer curtir e jogar, porque na realidade nunca deixou de gostar de futebol. É impossível. Tão impossível quanto continuar torcendo pra clubes profissionais que se tornaram balcões de negócios e marketing. De repente, então, o Autônomos e suas referências estéticas e históricas se torna o clube dos que querem outro mundo, dos que querem jogar bola numa boa, sem chatices. A festa autônoma, finalmente, encontrou seu lugar: o Auto é de todos que quiserem ser do Auto. Sem entrevista pra entrar, nem pra sair. Mas com cobrança pra ficar e fazer, o que quer que se queira e possa fazer, de forma autogestionária e horizontal. Futebol, risadas, música e política.

Dizia Emma Goldman que se não pudesse dançar, não era sua revolução. Pois bem: se não podemos jogar, não é a nossa.

VAMO AUTO!

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